Cavalhadas

Origem histórica

"A Batalha de Carlos Magno e os 12 pares da França"  

As cavalhadas foram trazidas de Portugal, onde nos tempos antigos constituíam um complemento indispensável nas festas religiosas, políticas e guerreiras, e uma vez introduzidas no Brasil, aqui se tornaram muito populares, sendo bastante praticadas desde o século 17 até ao século 19. Consistiam numa espécie de torneio no qual um número par de cavaleiros, geralmente doze de cada partido, mouro ou cristão, travava guerras simuladas, ou escaramuças, acompanhadas de várias provas de equitação, terminando tudo, após propostas de paz, com o aprisionamento dos mouros.

Sua história remonta a muitos, muitos séculos. Em 711, cerca de 7.000 árabes atravessaram o estreito que separa a Europa da África, desembarcaram junto a um enorme rochedo hoje denominado Gibraltar, e empenharam-se na ocupação de Portugal e grande parte da Espanha, iniciando um processo que redundou na presença árabe-islâmica na península ibérica durante centenas de anos, já que só veio a terminar oficialmente no final do século 15, apesar de ter-se mantido socialmente até o começo do século 17. Como no período inicial da invasão os francos consideraram perigosa essa vizinhança, no ano de 778 o rei Carlos Magno, atravessou os Pirineus com seu  exército e tratou de enfrentá-los. Não foi feliz nessa empreitada, mas quando se retirou das terras espanholas, seu sobrinho Rolando morreu na célebre batalha de Roncesvalles, episódio que inspirou não só o grande poema épico medieval “Chanson de Roland” (Canção de Rolando), mas também o surgimento da devoção a Santiago de Compostela, o Santiago Matamoros.

Durante séculos a história de Carlos Magno foi cantada por trovadores, até que no final do século 15, durante o reinado de Isabel I, a Católica, rainha de Castela e Leão, os árabes perderam para ela as cidades de Málaga e Baza. Decidida a estabelecer a unidade religiosa em seu reino, a fervorosa rainha e seu esposo, Fernando V, decidiram implantar o catolicismo nas terras conquistadas, e entre as medidas adotadas para chegarem a esse fim incluíram a criação de uma festividade que pudesse incentivar o culto cristão e repudiar os mouros. Surgiu, assim, a cavalhada, que teria chegado ao Brasil com os portugueses, ganhando, posteriormente, um perfil próprio em cada região brasileira.

É costume dizer que essa representação foi introduzida no Brasil por missionários jesuítas que procuravam catequizar os índios e escravos mostrando-lhes o poder da fé cristã.

Existem registros sobre as cavalhadas no Brasil desde 1685, e apesar do transcurso de tantos anos, ela continua sendo uma festa popular em vários pontos do país. São duas as suas formas de apresentação: uma, dramatizada, é praticada em Goiás (as famosas cavalhadas de Corumbá de Goiás e Pirenópolis), São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul; a outra, na forma de jogos de destreza e sem dramatização, tem lugar no Nordeste e no Rio de Janeiro, onde o único grupo ainda em atividade localiza-se no distrito de Santo Amaro, município de Campos. Lá, o dia 15 de janeiro é a data da festa em homenagem ao padroeiro local, Santo Amaro.

Conteúdo retirado do site: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=696961

Cavalhadas em Corumbá

Em Corumbá de Goiás, as Cavalhadas ocorrem durante a festa de Nossa Senhora da Penha, entre 30 de agosto e 8 de setembro no Campo de Cavalhadas, que fica a poucos metros do centro da cidade. Duram 15 dias: dez dias de ensaios, dois de descanso, e três de apresentação. No primeiro dia da apresentação, os dois exércitos inimigos, mouros e cristãos, se encontram. O rei de cada um dos exércitos tenta convencer o outro a passar para sua religião, mas o mouro propõe que eles devem lutar para decidir. Aquele que tem a fé verdadeira sairá vitorioso.

Cada luta é uma corrida a cavalo, que representa uma disputa entre os dois lados. No segundo dia, ocorrem novas lutas, que representam novas corridas. Numa delas, os cristãos vencem e prendem os mouros. Estes são então batizados e tornam-se cristãos. Na última corrida, a guerra dá lugar à amizade e às homenagens. No terceiro e último dia, as corridas representam a amizade entre os dois exércitos antes inimigos.

Personagens

Em Corumbá, as Cavalhadas são formadas por 24 cavaleiros, sendo 12 mouros na cor vermelha e 12 cristãos na cor azul. O símbolo dos cristãos é o cálice - que representa o catolicismo -, e o dos mouros, a meia-lua - que representa os árabes, o Oriente . Os cristãos trajam camisa e calça azul de cetim com detalhes prateados, botas prateadas e na cabeça, um capacete prata. Os mouros usam camisa e capa de cetim vermelhas, calça vermelha bordada e botas douradas; na cabeça, um capacete vermelho e dourado. A espada e a lança usadas durante a encenação do combate complementam a indumentária dos cavaleiros.

As roupas e acessórios dos cavaleiros, as mantas e máscaras dos cavalos são feitos por artesãos locais e costureiras da cidade, como é o caso de Rita Maria Pereira que, além de dirigir e tomar conta do hotel Pouso da Penha, confecciona, borda, costura e guarda as roupas utilizadas nas Cavalhadas, além de consertar aquelas que por algum motivo se estragaram durante a apresentação. Os acessórios dos cavalos são os principais destaques do trabalho, que é mantido dentro da pousada em um compartimento reservado.

Além dos cavaleiros, há ainda os papéis do espião mouro, que é morto por um cavaleiro cristão; o padre, que batiza os mouros; os pajens, que cuidam dos cavalos e das armas; os mascarados, que divertem o povo nos intervalos das corridas; as pessoas, que vão assistir a esse teatro e os que ajudam a organizar o espetáculo. O ritual da luta entre mouros e cristãos é antecedido pelo desfile dos caretas ou xururu,grupo de mascarados representando bruxas, caras de boi com chifres e outros animais, como o boi e a onça que animam a festa respresentando espíritos que vagam por ai....

Duelo

Há ainda corridas nas quais os cavaleiros mostram habilidades, como o duelo das argolinhas, em que cadacavalhadas cavaleiro deve tirar a galope uma argolinha pendurada numa trave. E entre os cavaleiros de cada exército, este é considerado o verdadeiro desafio, pois o resultado depende somente dos próprios cavaleiros, e não é pré-determinado pela história, ou seja, neste desafio os mouros podem sair vitoriosos, tanto como os cristãos.

Há uma rídigida hierarquia entre os cavaleiros. Nas Cavalhadas há a figura do rei, do embaixador e dos guerreiros. Todos desfilam sobre cavalos paramentados com selas cobertas por mantas bordadas e, sobre os olhos dos animais há uma máscara toda trabalhada em cor prata enfeitada com penas vermelhas e amarelas.

Os dez dias de ensaios ocorrem na beira do rio Corumbá, e não no próprio Campo de Cavalhadas. "O chão se desgasta muito com os galopes, e com as coreografias feitas pelos cavalos", afirma Emílio Jacinto, ex-presidente da Associação dos Cavaleiros das Cavalhadas de Corumbá (Asca). O Campo de Cavalhadas é reservado somente à apresentação final.

Após cada dia de ensaio, são realizados os jantares dos cavaleiros. Esses jantares ocorrem na Praça da Matriz, são abertos a toda a população por um preço simbólico de R$ 2, durante os dez dias que antecedem a festa. Neles ocorrem apresentações culturais, e são mostrados vídeos das Cavalhadas e de outros eventos da cidade.

Galope

Entre as Cavalhadas de Corumbá e as de Pirenópolis existem certas diferenças, apesar das cidades serem muito próximas e terem costumes semelhantes. A principal diferença que se pode considerar é a grande ajuda oficial para a realização das Cavalhadas nessa cidade. "A prefeitura de Pirenópolis arca com todas as despesas do evento, e há um grande trabalho de divulgação também", destaca Ramir Curado, historiador de Corumbá.

Em contrapartida, as Cavalhadas de Corumbá contam somente com o apoio da Asca. A associação arca com todas as despesas, o aluguel dos camarotes e tendas, a contratação da banda que toca na festa, os jantares dos cavaleiros, e tudo o que diz respeito à organização. Com relação às diferenças estéticas, destacam-se distinções nas roupas dos cavaleiros. As capas dos cavaleiros de Corumbá são mais curtas que as dos cavaleiros de Pirenópolis. Em Corumbá, os soldados usam capacete; em Pirenópolis, chapéus.

Em relação à apresentação do teatro, as coreografias são diferentes, assim como os galopes. Os cavalos galopam de acordo com a música, como numa dança. Cada corrida representa um galope diferente. Nas Cavalhadas de Corumbá, durante o desafio das argolinhas, os soldados vão de dois em dois, enquanto que em Pirenópolis os soldados vão de um em um.

As Cavalhadas são motivo de grande orgulho e de grande mobilização da população corumbaense. Não há quem não goste e não participe dessa festa. Além de representar uma rica e bela tradição, as Cavalhadas servem também como ponto de encontro daqueles que se mudaram de Corumbá com aqueles que lá permanecem e por isso, é uma época de muita alegria e satisfação.

Para se tornar um cavaleiro, basta arcar com as despesas dos trajes e do cavalo, além, claro, tem de haver vaga, pois ser um cavaleiro, participar das Cavalhadas é uma grande honra para um morador de Corumbá, como eles mesmos afirmam e por isso, cada lugar é muito disputado. Para se ter uma idéia, há cavaleiros que chegam a vender sua vaga para outro. Existe ainda um time reserva de cavaleiros, caso algum cavaleiro se machuque durante o ensaio, ou durante a apresentação.

Mascarados

Os Mascarados são atração tão grande quanto os cavaleiros mouros e cristãos. Conhecidos também como "Curucucús", por causa do som que emitem, são pessoas que se vestem com máscaras, roupas coloridas, luvas e botas. Mudam a voz ao falar e cobrem todo o corpo para que ninguém os reconheçam. Enfeitam seus cavalos com fitas, tecidos, plantas e tudo quanto a criatividade mandar.

Tradicionalmente existe vários tipos, Os mais tradicionais são aqueles com máscara de cabeça de boi, seguindo pelos que usam máscaras de onça, máscara de homem, e mais recentemente apareceram aqueles com máscaras de borracha, com cara de monstro, desfocando um pouco a originalidade da Festa. Mas isso não diminui a beleza e o entusiasmo dos Mascarados, que saem às ruas à galope em algazarra. Pedem com vozes fanhosas cervejas e cigarros aos transeuntes e divertem a população com suas acrobacias e brincadeiras.

Nos intervalos das corridas, o campo é invadido por estes mascarados. Não se sabe a origem destes personagem, que são encontrados em todas as cavalhadas do Brasil com diversas diferenças entre as cidades,provavelmente uma criação brasileira. São irônicos e debochados, fazendo críticas aos poderosos e ao sistema. E, ao contrário da rigidez dos Cavaleiros, entre os Mascarados tudo é permitido, menos mostrar a cara.

Referênciahttp://www.fac.unb.br/revista20072/index.php?option=com_content&task=view&id=15&Itemid=13